Para hoje ainda. Antes de continuar a ler isto, vale a pergunta honesta: quantas vezes você já pesquisou alguma coisa no Google desde que acordou?
Eu fiz a conta outro dia e me assustei. Acordei e pesquisei a previsão do tempo. No café, procurei o significado de uma palavra que ouvi num podcast. Antes do almoço, comparei dois modelos de tênis. À tarde, um sintoma bobo que um amigo descreveu virou três abas abertas sobre o assunto. Nenhuma dessas buscas foi planejada. Elas simplesmente aconteceram, do jeito que a gente respira sem pensar.
Pesquisar virou reflexo. Deixou de ser uma ação consciente para se tornar um gesto automático, quase um tique coletivo. Diante de qualquer dúvida, por menor que seja, a mão já vai ao celular. E o mais curioso é que confiamos nisso. A primeira página do Google, para a maioria das pessoas, não é "uma fonte de informação". É a informação. É a verdade provisória que aceitamos enquanto não temos motivo para duvidar.
É aí que eu começo a pensar como quem trabalha com isso o dia inteiro. Porque se pesquisar é um reflexo, então existe um momento, milhões de vezes por dia, em que alguém digita exatamente aquilo que outra pessoa poderia responder. E uma dessas buscas, neste exato instante, é sobre um problema de saúde. Sobre uma especialidade. Sobre um médico.
Penso muito nisso quando converso com médicos. Muitos ainda tratam a presença digital como um detalhe, algo que fica para depois, um "quando sobrar tempo". Mas o paciente não espera sobrar tempo. Ele dá o Google dele, hoje, agora, e a resposta que aparece é a que existe, não a que seria justa. Se o profissional mais preparado da cidade não está lá, ele simplesmente não entra na conversa. Quem aparece, ganha. Quem não aparece, nem fica sabendo que perdeu.
E não estou falando só do Google. A cena se repete, multiplicada, quando alguém abre o ChatGPT e pergunta qual especialista procurar, ou pede ao Gemini uma recomendação. São novas vitrines, com a mesma lógica antiga: aparece quem construiu presença, some quem confiou que seria lembrado por mérito.
Eu sei que soa um pouco frio reduzir algo tão humano quanto a relação entre médico e paciente a uma caixa de busca. Mas talvez seja o contrário. Talvez estar presente nessa busca seja, hoje, uma das formas mais concretas de cuidado. É estar disponível no momento exato em que alguém, sozinho diante da tela, está procurando ajuda e ainda não sabe em quem confiar.
Então eu devolvo a pergunta, agora com outro peso. Você já deu um Google hoje? Deu, claro. Todos nós damos. A questão de verdade é se, quando alguém der o Google sobre aquilo que você faz, vai te encontrar do outro lado.
Se essa crônica te fez pensar no seu próprio lugar nessas buscas, talvez seja hora de uma conversa.
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